domingo, 6 de novembro de 2011

Capitulo 3 - O demônio.

                As gotas caiam, cada vez mais rapidamente.
            – O sótão. – disse James olhando para Anabelle apreensivo. – O que você viu lá era mesmo um demônio?
            – Das criaturas que eu conheço. – respondeu como se fosse óbvio.
            – Ana, leve sua irmã para a casa de Emily e diga para Ralph vir aqui imediatamente.
            Sem falar nada, a menina se apressou a pegar sua irmã, e segundos depois – ou assim pareceu – já estava no quarto de Emily, onde festejavam a morte de Succa-Maleum
            – Ralph, James pediu para ir até o sótão da minha casa, agora. – disse ela fingindo não notar que estragara a “festa” no quarto.
            – Claro, já estou indo. – disse o garoto indo para a porta e fazendo menção de Anabelle ir para dentro – Não saiam desse quarto, por nada nesse mundo. – fechou a porta e saiu.
            Michelle parara de gritar e chorar, agora só mostrava uma cara de medo, assustada, olhando para a irmã.
            – Calma, Miche, está tudo bem agora. Pode me dizer por que começou a gritar?
            – Eu vi mamãe. – disse a garota tristemente. – estava cheia de cortes pelo corpo e tinha sangue.
            – Mas mamãe está viajando, lembra? Como pode ter visto ela?
            – Eu não sei, Belle. Ela só estava lá – respondeu inocentemente.
            Anabelle olhou para Mary e Emily, as duas apreensivas e, aparentemente, com muito medo.
            – Tudo bem, está tudo bem, ok? – e a garota, por fim, abraçou a irmã que se encolhera em seu colo.
            Mary apressara-se a sair do quarto e verificar o que acontecera, mas Emily rapidamente a impedira.
            – Lembra o que Ralph disse? Que não devíamos sair daqui. É melhor ficar, ainda não sabemos magia o suficiente para nos protegermos. E proteger as duas – e por fim, apontou com a cabeça para Anabelle e Michelle.
            – Eu quero saber o que aconteceu lá, eu não sei magia para proteger todas nós, mas sei para mim mesma. – respondeu Mary, decidida. E antes que Emily respirasse, saiu do quarto. Emily seguiu-a.
            – Onde elas foram? – perguntou Michelle olhando para a porta aberta.
            – Foram ajudar Ralph e James. Temos que ficar aqui está bem?
            A menina confirmou com a cabeça. Por fora, Ana lhe mostrava um sorriso como quem diz “tudo vai ficar bem”, mas por dentro, a garota congelava de medo, afinal, não teria muito de fazer sem seus poderes. E sua irmã não sabia usá-los.  
            Começou a rezar baixinho. Sempre acreditara na bondade que o mundo tinha, até em momentos mais escuros.
            “Pai Nosso, que estais no céu, santificado seja vosso nome, tenha vós o nosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu, o pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aqueles que vos tem ofendido, e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal, Amém.”
            Alguma coisa aconteceu. Alguma coisa estranha, bonita. Faíscas brancas pareciam tomar conta da casa. Uma criatura gritara, e saíra da casa correndo. Não era um humano, parecia o mesmo que havia no sótão. Alguém muito claro, que parecia na paz, aparecera entrando no quarto.
            – Mamãe? – disse Anabelle extremamente confusa – Por que está toda de branco, assim? O que aconteceu? Quando voltou da viagem?
            A mulher apenas sorriu, acenou como uma despedida e disse “Eu amo vocês duas”. Anabelle entendeu. Michelle ainda parecia muito confusa.
            – Eu também te amo, mãe. – disse Ana com lágrimas nos olhos.
            Lentamente, ela ia sumindo. Pode-se, por fim, ouvir um “Protegerei vocês, é uma promessa de bruxa para bruxa” antes de vê-la sumir completamente.
            – O que aconteceu? Cadê a mamãe? – perguntou Michelle
            – Encontrou paz, Miche. Ela...voltou a viajar.
            Ralph, Mary, Emily e James apareceram na porta, aparentemente estavam correndo.
            – O que aconteceu lá?
            – Foi...depois eu te conto – disse James olhando para Michelle. – O que aconteceu aqui?
            – Aparentemente o demônio ou alguma criatura maligna no tamanho de um humano estava pronto para me atacar até minha mãe chegar aqui. Ele saiu correndo, alguma coisa assim.
            – Mas sua mãe... – começou Mary aos prantos
            – Eu sei...eu sei. Pelo menos pude dizer adeus á ela. – disse a garota tomando cuidado com suas palavras – Agora que ela foi viajar...por um longo tempo.
            Maryane, Emily e Anabelle, todas com lágrimas nos olhos, acharam melhor melhorar o clima.
            – Esta ficando escuro, eu vou ficar lá em casa com a Miche...meu pai vai me matar se me ver fora de casa – disse Anabelle, com a voz baixa – se eu precisar de alguma coisa eu chamo alguém.
            – Ana...não está segura para ficar sozinha. Esses dias você dormiu sempre na casa de alguém... – falou Ralph
            – Eu vou estar protegida – interrompeu-o Ana, irritada – Eu sei disso.
            E saiu, carregando Michelle no colo, atropelando todos a sua frente.
            – Ela não sabe que o mal existe também? Alguém precisa ficar de olho nela.
            Todos olharam para James. Aparentemente esperavam que ele dissesse algo do tipo “Eu cuido dela” ou “Deixem isso comigo”, mas o garoto apenas olhou confuso, dizendo na verdade “O que foi?”
            – Você vai pedir para ficar de olho nela, não vai?
            – Eu só tinha pensado nisso...não ia falar.
            – O.k, mas James, por favor, você precisa ter cuidado. Elas dormem em quartos separados e você precisa cuidar das duas.
            – Eu o ajudo, ele não pode cuidar de duas garotas inocentes, sozinho – disse Ralph recebendo um olhar de “obrigado” de James.
            – Ótimo, mas, por favor, se precisarem de QUALQUER coisa nos chamem, entenderam?
            Os meninos confirmaram com a cabeça, e seguiram até a casa de Emily.
            Ralph ia entrando pela porta da frente, sem ser meramente discreto, mas foi puxado por James.
            – O que acha que ela vai dizer se nos vir entrando pela casa assim, sem mais nem menos?
            – Certo...vamos escalar a arvore que dá até a janela dela. Então, nós abrimos a janela com magia, sem fazer barulho, e eu vou ver Michelle e você toma conta da Anabelle.
            – Ok, ok, anda logo.
            Ralph foi o primeiro a escalar a árvore, seguido de James.
            O quarto de Anabelle estava escuro, aparentemente alguém que dormira e esquecera-se de fechar as cortinas. Mas olhando a cama, estava totalmente arrumada, e podia se vir uma garota ali chorando baixinho olhando pela janela o luar.
            – Ela está acordada – sussurrou Ralph – Como vamos fazer?
            – Deixe isso comigo. – e antes de raciocinar algum dos ruídos da voz de Ralph, James fora em direção a janela que a menina não estava olhando, e batera de leve nela.
            Anabelle olhou, secou as lágrimas e abrira a janela, rápida e alegremente.
            – O que faz aqui, James? Eu disse que estaria segura.
            – Eu só quero que esteja ainda mais, Ana. Posso dormir aqui hoje?
            – E seus pais? Não vão estranhar?
            – Não, eles sabem exatamente o que eu estou fazendo, só preciso avisá-los que estou bem de quando em quando.
            – Uau. E os pais de Ralph? – disse a garota que observara o menino na árvore. – Também sabem disso?
            – Os pais dele, ahm...morreram. – disse o garoto, parecendo que soltou o diabo. – Ele tenta continuar vivendo, não quer arruinar a vida, sabe? Mas sei que é difícil. Ele vive comigo, somos praticamente irmãos. 
            A garota olhou para baixo, desejando que alguma coisa quebrasse o gelo da situação.
            – Sobre aquilo no sótão... – começou James
            – Não, tudo bem. – interrompeu a menina – eu...é que...não pareceu...o momento certo. Não pareceu certo. Em todos esses problemas, é só que...você consegue me entender?
            – Tudo bem...entendi. Ei, Ralph vai ficar vigiando sua irmã, está bem?
            Ralph entrara no quarto, fingindo um sorriso no rosto. Era obvio que não era verdadeiro, estava na cara.
            – Ralph... – começou Anabelle – sinto muito.
            Entendendo como o garoto se sentia, abraçou-o, sentindo algumas lágrimas caírem quando retribuiu seu abraço.
            – Sua mãe encontrou paz, ela é um anjo agora, literalmente. Por isso você pôde vê-la, Ana. – disse o rapaz terminando de abraçá-la – É como se ela tivesse terminado todos os deveres na terra, entende? É muito complexo. Mas meus pais não. Eles não terminaram o que tinham de fazer aqui...eu não consigo encontrar eles. E acho que nunca conseguirei.
            – Ei, eles estão com você, está bem? Não preciso dizer onde, você sabe. Confie em mim.
            – Eu venho tentado falar isso a ele faz anos, e nunca exatamente entendeu. – interrompeu James
            Ralph riu de leve, parecia ter entendido o recado. Sorriu em agradecimento para Anabelle que retribuiu do mesmo modo.
            “BELLEEEEEEEEE!” gritou a voz de Michelle do seu quarto, apavorada. Ana virou a cabeça tão rapidamente que pareceu que ia deslocar. Correu para o quarto da irmã e se deparou com uma miniatura de sua forma quando o demônio entrou em seu corpo.
            – FAÇAM ALGUMA COISA, AGORA! – berrou a irmã mais velha ao ver sua pequena irmãzinha naquele estado, dentro do berço.
            Podiam-se ouvir as duas vozes trabalhando juntas no mesmo feitiço que James usara para tirar o demônio de Anabelle: “Get rid of malum ivenitur spei”. Após repetirem três vezes, Michelle voltara ao normal.
            Anabelle correu em direção a Michelle, mas alguma coisa estava a sua frente, invisível, mas que parecia ser alguma coisa sólida.
            Ana fez menção de colocar a mão nisso que era sólido mas invisível, segundos antes de irem aparecendo partes dessa coisa, dos pés, depois para a coxa, a barriga, o peito, e diretamente com o pescoço, a cabeça. Não era um humano, passava longe de ser. Sua cabeça era monstruosa, alguma coisa que assustava crianças. Não possuía nariz nem boca, muito menos olhos. Era o formato de uma cabeça humana, com lugar para a boca, para o nariz e para os olhos, mas sem nada. Era tão “vazio” que dava um medo enorme. Parecia uma criatura feita de pano, mas antes de chegar a conclusão que seria mesmo de pano, foi se transformando em uma pele de cobra, com cor de pele normal. Finalmente os olhos iam aparecendo. Ao em vez de um olho normal, a esclerótica era vermelha, como se todas as veias do olho haviam estourado, e suas íris eram em baixo vermelho, no meio laranja e em cima amarelo, representando as cores do fogo. A boca tinha formato como se fosse de alguém morto. Os lábios eram cinza, os dentes todos pontudos e amarelos. Apenas seu nariz aparentava ser alguma coisa normal.
            – ANA! – gritou James, antes de entrar no quarto e puxar a garota para fora – É um demônio, Ana!
            – MINHA IRMÃ ESTÁ ALI! – gritou, voltando para o quarto, á frente de Ralph e James
            – Você é estúpida, Belle. – disse a voz do demônio, uma voz igualzinha a de sua irmã – Você nunca vai conseguir me salvar, Belle. Nunca foi uma boa irmã! Sua idiota!
            – Michelle? – gritou a garota, que aparentemente achou, por um momento, que era mesmo sua irmã falando.
            – Não, você não vai mexer com os medos dela, eu não vou deixar. – berrou James, fazendo o demônio virar-se para ele.
            – Seu tolo. – disse o demônio, que agora interpretava a voz de uma garota, aparentemente de quartorze anos – Desista agora e você não vai precisar morrer para salvar a vida de outra garota que não te quer.
            James pareceu desabar. Anabelle pareceu confusa, já Ralph olhou para James com um tanto de piedade.
            – Ele está MENTINDO! – disse Ralph correndo até James que parecia desconsolado.
            Agora o demônio virara para Ralph, Ana tinha certeza de que voz ele iria interpretar.
            – Filho ingrato! Eu morri por você, e não faz nada em troca. – disse uma voz masculina, que parecia de alguém extremamente simpático – Não sabe quanto eu e sua mãe batalhamos para ver você bem, e olhe em que buraco foi parar.
            Anabelle, discretamente, pegou seu celular e ligou para o número de Emily, e deixou o celular no chão, no viva-voz.
            – SEU TOLO! PARE DE BRINCAR COM OS SENTIMENTOS DOS OUTROS – gritou Anabelle querendo atenção do monstro
            – E você vai tentar me matar, Belle? – disse novamente a voz da irmã.
            Ana olhou para o berço, onde sua verdadeira irmã chorava em silêncio, observando a cena, tomando cuidado para que ninguém a notasse. Depois virou os olhos para Ralph e James, os dois pareciam tentar esquecer o maior medo de suas vidas.
            Obviamente, era muito real que estivesse a voz de sua irmã ali.
            – Ana, não dê atenção a o que ele diz, entendeu? – disse James olhando para Ana, ainda muito abalado.
            – Olha quem fala – disse a garota com desprezo. – James, vamos, você não vai perder mais ninguém. O que ter que tenha acontecido, nunca acontece de novo. Nunca da mesma forma, nunca termina igual.  E Ralph, você sabe que seus pais nunca diriam isso a você. Eu vejo muita bondade em você, e tenho certeza que isso veio dos seus pais. Eles nunca diriam algo tão estúpido, vocês sabem disso.
            Agora, o mesmo rugido que Anabelle tinha dado naquele dia, reapareceu na voz do demônio. Ele chutara o estômago da menina e a fizera bater a cabeça na porta, depois caindo no chão.
            – Ana! – gritaram James e Ralph, ambos com muita raiva do demônio.
            Mary e Emily apareceram correndo na porta, Mary com um telefone na mão e Emily com os punhos fechados.
            O demônio as viu, e recuou completamente até bater no berço de Michelle. Virou-se, encarou a menina, que temia de medo, e então, pegara ela e colocara pelo ombro, de cabeça para baixo. Segundos depois, deparou-se aquele quarto com uma janela quebrada, um berço vazio e um ambiente sem nenhum demônio. 

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